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Blog do Hailer - www.hailer.acapa.com.br

23/8/2010

A origem

O que é real? Esta pergunta ganhou grande contorno com o filme "Matrix (1999)", quando o personagem Neo tinha que escolher entre continuar a viver dentro da matriz e num mundo onde tudo não era o que parecia, ou adentrar o mundo real, cinza, decaído e com a raça humana quase extinta.

Sentimos o sabor da carne, ou ele foi imputado em nossa mente?

Em 2004 foi a vez do ótimo "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" acrescentar um pouco mais a questão da realidade, na verdade, perturbou: um grupo de cientistas possuia uma máquina que podia apagar as más lembranças, porém, estas estão sempre acompanhadas de coisas boas.Uma não vive sem a outra.

Viver com os fantasmas ou esvaziar a mente?

Agora temos a oportunidade de aprofundar ainda mais a questão da realidade e sonho com o excelente "A origem". Na história há um grupo de ladrões/invasores de sonhos. A trama gira em torno do grupo tendo que plantar uma ideia na cabeça de um sujeito, para que ele tome uma decisão que pode afetar a todos. Para tal, o grupo necessita ir até a terceira camada do subconsciente, onde só há emoção. Quem lá morre, por La fica.

As três obras giram em torno da velha questão da filosofia: quem somos? O que é real? De onde viemos? E os sonhos, por que algumas vezes eles parecem ser tão reais? Estes temas permeiam o cotidiano de todos. Quantas experiências vivemos e as guardamos em nosso inconsciente? E o que aconteceria se pudéssemos (re) encontrá-las? Mudá-las?

Os três filmes nos mostram que as experiências não são boas. Em "Matrix" o mundo continua nas cinzas, em "Brilho eterno...", as pessoas descobrem não ter como apagar os recalques... Sobre "A origem" o buraco é mais embaixo. Quantas pessoas que passam por nós, marcam e somem por N motivos? E como lidar com a lembrança muito boa do tal momento? E como esquecer quando o amado morre?

É impossível controlar as emoções e o passado. Eles emergem em nossa mente, nós arcamos com a dor, ou prazer...

O filme "A origem" pode ser considerado um ensaio freudiano a respeito da questão do sonho, mas imagine se Freud pudesse ter tido acesso aos sonhos de seus pacientes? Vive-los. O filme propõe isso, mas não na pele do pai da psicanálise...

No fundo todos nós desejamos ver os rostos em nossos sonhos, saber como começaram e não apenas surgir no meio da história e ser retirado do prazer no meio do auge. Claro também é que nós somos os criadores de nossos demônios, perturbações e não temos controle sobre eles. Convergimos.

Mas, o que é real? E os sonhos, construções oníricas?


Postado por Marcelo Hailer | 19:03:55 | Comente

6/8/2010

Debate dos presidenciáveis foi conservador

Na ultima quinta-feira (05/08) a rede Bandeirantes realizou o primeiro debate ente os candidatos a presidência da república brasileira. Beirou o desastre e a chatice. Sem contar o conservadorismo gritante na abordagem dos temas, que foi levantado pelos próprios candidatos quando um questionava o outro. Coma exceção de Plínio Arruda (PSOL).

O debate ficou centrado entre Dilma (PT) e Serra (PSDB). Dois tecnocratas. Serra ficou defendendo o legado FHC, enquanto Dilma dissecava os números do governo atual. Faz sentido. O país está melhor em vários aspectos. E, Serra abraçou a retórica dilmista e disse que irá continuar o que está sendo feito. Não houve oposição. Em alguns momentos até parecia o chá das seis. Entediante.

A discussão ficou centrada na questão econômica, geração de empregos, terra e saúde. Plínio até ironizou o candidato tucano ao chamá-lo de "hipocondríaco", pois só falava de saúde. Marina Silva (PV) se revelou um ótimo cabo eleitoral da candidata petista. Era só elogios ao governo Lula.

Infelizmente os temas que poderiam esquentar o debate e realmente colocar os reais pontos de vistas na mesa não foram abordados. Por exemplo, em momento algum conflitaram Marina e sua posição religiosa; não questionaram Dilma sobre ser ateia ou não; as privatizações do projeto de poder do Serra... E aí Plínio marcou outro ponto, quando falou sobre a questão da dívida interna: "Não vamos pagar".

Enfim, este foi apenas o primeiro debate. Vamos torcer para que os próximos sejam mais provocante e saiam do senso comum e do roteiro pronto. Temos aí o debate da MTV, que será realizado no dia 24 de agosto, e pode ser que tenhamos uma surpresa agradável, pois o programa será praticamente feito pela audiência do canal.

Vamos torcer para que as questões em torno dos direitos LGBT sejam abordados, aborto, legalização da maconha e quem sabe, laicidade do estado...

E ainda sobre o debate da Band, fecho com uma afirmação do Plínio a respeito do ocorrido: Foi a conversa das polianas, todo mundo é bonzinho!

Postado por Marcelo Hailer | 23:01:40 | Comentários(1)

19/7/2010

Casamento gay na Argentina

Bom, já não é mais novidade, até no Jornal Nacional foi noticiado. A Argentina aprovou o casamento gay e igualou os direitos dos casais gays aos dos heterossexuais. Vale notar a postura da presidente Cristina Kirchner, que pessoalmente entrou na luta e ainda por cima enfrentou os setores reacionários da igreja católica dizendo que eles ainda estão na "inquisição".

Por terras brasileiras os sinais são os piores. Dilma, Marina e Serra fizeram acordos com lideranças religiosas. Tudo em nome do voto. Como bem disse Luciana Genro, "os partidos abrem mão de seus ideais para fazer acordo com os religiosos". Dito e feito. Portanto, não podemos esperar muito do próximo executivo, pelo menos no que diz respeito a leis de fato. Deixarão nas mãos do legislativo. Ou seja, não se empolgue.

Tenho insistido na teoria de que o voto válido está nos parlamentares. Vários candidatos que apóiam historicamente as questões LGBT são candidatos. Alguns querem se reeleger, outros querem retornar. Caso contrário, corremos o risco de ter um legislativo conservador somado a um executivo também conservador.

Mas também não da pra votar, sentar e esperar o grande milagre acontecer no Congresso Nacional. É preciso pesquisar o seu candidato, o partido e sua história. Porém, este ano pelo menos temos uma candidata à presidência da república que é sincera: Marina Silva, se depender dela, tudo que diz respeito aos LGBT será engavetado. 

Postado por Redação | 19:11:46 | Comentários(1)

30/6/2010

Vampiros TFP

Estreia essa semana a terceira parte da saga "Crepúsculo", cujo título é "Eclipse". Comecei a ter contato com esses novos vampiros por conta da minha sobrinha, que tem 12 anos e está vivendo o seu momento cultural teenager.

Um dia ela me explicou como eram esses vampiros criados pela norte americana Stephenie Meyer: são vegetarianos, ou seja, não bebem sangue de seres humanos e só de animais; eles podem sair na luz do dia e ao entrar em contato com o sol brilham feito diamantes. Até aí sem problemas. Uma releitura vampírica para uma sociedade cada vez mais careta.

Os meus primeiros problemas com a série se deram quando resolvi assistir aos dois primeiros filmes. Um em casa e o segundo no cinema. Descobri que o problema não residia apenas na questão deles serem vegetarianos e brilharem no sol. O casal principal: Edward, o vampiro, e a moça ainda humana, Bella, é representação travestida de vampiros de tudo o que há de mais conservador quando falamos sobre casais.

O primeiro dilema de Bella e Edward será a questão de transformar ou não a moça em vampira, resolvido este drama eles passam para o segundo: não transar antes do casamento. Opa: Vampiros casam agora. E este drama é a tônica de boa parte da história. Casar, ter filho e viverem juntos para sempre. Numa época em que a sexualidade é reprimida como no século XIX, a história presta um desserviço ao propor a virgindade e a união eterna.

O outro problema é da questão estética mesmo. A cultura vampiresca propõem uma revisão de valores da sociedade. Trata também da exclusão ao qual o ser diferente é submetido numa sociedade homogênea. E se nós analisarmos o próprio contexto da família de Edward, é a coisa mais Tradição Família e Propriedade (TFP)... Das roupas usadas ao status social.

O último boom vampiresco antes de saga "Crepúsculo" se deu com as "Crônicas Vampirescas" de Anne Rice, que ficaram imortalizadas na pele do vampiro Lestat, magistralmente interpretado por Tom Cruise na adaptação para "Entrevista com Vampiro".

Na saga de Anne Rice a homossexualidade era fator gritante. Isso pode ser observado nos personagens de Lestat e Louis. Amantes e errantes estavam condenados a não ter o amor consumado.

Certa vez um amigo fez uma leitura bem interessante de uma cena. É quando Louis, após perder Lestat de vista, se sente sozinho no mundo como se só existisse ele de vampiro. Encontra Armand, um dos vampiros mais antigos. O novo amigo de Louis o leva para conhecer um ponto de encontro vampiresco. Louis entra e começa a se reconhecer nos outros e também a descobrir mais sobre si enquanto vampiro.

Como você se sentiu na primeira vez em que entrou numa balada gay?

Enfim, analisando profundamente os símbolos em torno da saga "Crepúsculo" constata-se que estamos de frente para uma cartilha neoliberal, monogâmica, patrimonialista e abstêmia sexualmente.

Se o casal protagonista de Anne Rice era Lestat e Louis (foto), hoje retrocedemos e temos a heteronormatividade como centro da história de Meyer, onde o casal é Bella e Edward. Ou seja, culturalmente falando, nada de vampiresco há na saga “Crepúsculo”.


Postado por Marcelo Hailer | 18:49:4 | Comentários(1)

24/6/2010

Edson Néris do séc. 21

Comecei bem o dia hoje, mas profissionalmente da pior maneira, tendo que dar a noticia mais tristes dos últimos meses. A história de Alexandre Ivo, jovem de 14 anos que foi brutalmente torturado e assassinado por skinheads na cidade de São Gonçalo, Rio de Janeiro, na ultima segunda-feira (21/06).

E isso ocorre depois de um dia em que noticiamos o fato do deputado Eduardo Cunha (PMDB),  também do Estado do Rio de Janeiro, ter proposto um projeto de lei que vise acabar com a heterofobia.

Deveriam agora pegar a reportagem com o garoto e mostrar para o parlamentar e perguntar: O senhor ainda vai levar adiante essa brincadeira torpe de heterofobia? Já viu algum garoto heterossexual de 14 anos ser torturado, espancado com pedaços de madeira, ferro e pedras, estrangulado e ter o rosto desfigurado? Acredito que não.

É claro que quase todos os dias temos homossexuais e travestis assassinados pelo Brasil a fora, que mesmo não sendo num país teocrático e nem ter forca para gays, é um dos que mais mata homossexuais.

O que mais choca na história de Alexandre é a sua idade. Tão jovem e com certeza tão cheio de ansiedade pela vida que ainda tinha inteira pela frente.

É por essas e outras que não acredito em destino pré-fabricado. Ele voltava pra casa após uma festa com amigos. Três covardes rondavam as ruas atrás de sua vitima. Encontraram e saciaram o sue fetiche criminoso que é torturar e matar homossexuais e dessa vez pegaram uma criança. Sim, 14 anos, acabou de chegar à adolescência.

O horror é o horror...

Há dez anos o Brasil se chocava com outro brutal assassinato. Edson Néris caminhava com o namorado pela Praça da República no centro histórico de São Paulo. Também foi vitima da covardia torpe de um grupo de skinheads. Espancado até a morte. Agora choramos a morte de um jovem de 14 anos.

Quantos homossexuais terão que ser assassinados para que a homofobia se torne crime? E agora, o que os evangélicos fundamentalistas dirão? Que ainda queremos privilégios?

Postado por Marcelo Hailer | 16:49:14 | Comentários(4)

18/6/2010

O mundo ficou mais careta

Com a morte de José Saramago o mundo ficou mais careta e mais hipócrita. Saramago é um dos raros, que mesmo premiado e reverenciado no mundo inteiro nunca se tornou mais conservador ou polido. Da suas opiniões nunca arredou pé.

O meu primeiro contato com a obra do escritor português foi por acaso. No meu aniversário, acho que fazia uns 22 anos na época, ganhei de presente o conto "A ilha". Grande metáfora a respeito do homem. Sempre conquista, mas nunca está satisfeito. Quer sempre mudar, mas não sabe o que. É a si mesmo. Mas sempre mais fácil enxergar o outro. Um pequeno livro de grandes significações.

Alguns anos depois me aventuraria em "O evangelho segundo Jesus Cristo". Nesta obra descobri definitivamente a peculiaridade de Saramago. O fluxo de consciência a prosa é singular. Existe gente que tenta copiar, mas ficam sempre chatos. De inicio estranhei, principalmente a sua pontuação, tão saramaguiana.

Todas as suas obras são políticas. Principalmente os ensaios: sobre cegueira e sobre a lucidez. Se no primeiro as pessoas estavam cegas e mesmo com a visão continuavam a não ver nada, no segundo há uma overdose de lucidez. E as pessoas resolvem se rebelar contra o sistema dito democrático. Como? Usando a grande arma vomitada pelos tais defensores da democrácia: o voto. Relegam os políticos ao nada e passam a viver sob a auto-gestão. Bom demais...

Me apaixonei por Saramago não apenas pela sua obra literária. Esse foi o nosso primeiro contato. Fiquei admirado com a sua posição em relação às religiões, principalmente a católica. E na política do mundo real, quando ele, do alto do seus 80 anos disse em alto e bom som: "Berlusconi é um vômito".

Ou quando lhe perguntaram: o senhor ainda continua a apoiar o regime cubano, mesmo ele tendo matado um monte de gente e manter pessoas presas. Ele responde: Você poderia me falar assim: o senhor permanece católico, mesmo depois das inquisições terem matado milhões de crianças e famílias inteiras. Mestre.

O mundo fica mais careta. Quem mais irá criticar o que há de ser criticado dessa maneira? A Stephanie Meyer? Duvido muito. Hoje estamos rodeados do senso comum. Do conservadorismo de todas as maneiras. Os grandes críticos do sistema vão um a um. No ano passado nos deixou Levi Strauss, hoje Saramago... É, hoje é um dia triste.

Saramago parte e nos deixa a sua despedida. Caim. Muito sintomático.  A sua última crítica a instituição mais canalha do mundo. Também foi Saramago quem teve coragem de dizer que "Deus é a criatura mais maligna já criada pelo mundo". Pagou alto preço. Mas nunca voltou atrás ou pediu desculpas. Em outra entrevista, Saramago foi questionado se não tinha exagerado em ter chamado Deus de filho da puta em seu ultimo livro, Caim, e também de cruel e rancoroso. Ele responde: Olha, filho da puta pode ser que eu tenha me excedido, pois Deus não tem mãe, agora, rancoroso e cruel, basta ler cada pagina...

Pra fechar coloco uma frase de sua obra mais famosa e polêmica, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que para mim sintetiza boa parte do pensamento de Saramago:

"Perdoai homens, ELE não sabe o que faz"
 
 

Postado por Marcelo Hailer | 23:41:2 | Comentários(1)

14/6/2010

A bissexualidade

Reproduzo abaixo uma carta trocada entre amigas bissexuais. O tema é a questão do não reconhecimento da bissexualidade pelo movimento LGBT. Acabo de voltar de Salvador, onde fui cobrir, a convite do evento, a III Mostra Possíveis Sexualidades. Além dos filmes exibidos, houve um debate muito interessante sobre a teoria queer e sua oposição as letrinhas, que divide as pessoas em categorias. A teoria queer enquanto ponto de vista político propoem o fim das letrinhas. Sejamos todos queer, mas sem perder a particularidades de nossas identidades. Talvez esse caminho seja  a solução para tantas exclusões criadas por uma sigla, que mais confunde do que agrega. Leia o texto a seguir.

"Olá amiga!

Quanto tempo, não?! Espero que esteja bem!

Bom, escrevo a ti na verdade para dizer sobre minhas aspirações, que sentem falta de um feedback, pois essa questão de assumir a bissexualidade é muito solitária. Na maioria das vezes não tem eco. Tenho participado do movimento da maneira que posso, pois estou trabalhando no governo do estado, na cultura e viajo muito.

E isso faz com que eu pense, repense, me indigne. Vontade de dizer tantas coisas, mas ao mesmo tempo cansada de não ter retorno. No último encontro que participei, fiquei vários dias ouvindo sobre a visibilidade lésbica, em muitos momentos me sentindo um gasparzinho...rs. Ver pessoas até engasgar na hora de falar "bissexualidade" ou falando simplesmente pro forma e quando levanto para falar, vem aquele sentimento de alguém falando: "lá vem aquela de novo dizer que é bissexual".

Bom, foi assim praticamente todos os dias. O primeiro dia senti que esse negócio de só ouvir sobre lésbicas é muito chato. No segundo dia achei que pelos menos dizendo mulheres bissexuais, várias vezes já é um ganho porque, quem sabe assim, um dia nós entraremos na pauta de discussão do movimento. No terceiro dia, quando estávamos discutindo as propostas de cultura e as companheiras falando da cultura lésbica e que da bissexual não precisava falar, pois já estava contemplada nas lésbicas, foi demais.

Então, qual é o problema? Eu não me sinto contemplada, sou bissexual e não lésbica. Estou cansada de dizerem que quando estou com mulher sou lésbica, quando estou com homem sou heterossexual. Não! Sou bissexual independente de com quem esteja, amo as pessoas independentemente do seu sexo. Isso é o que me define! Minha identidade sexual é bissexual!

As lésbicas se preocupam tanto com a saúde das lésbicas, tentando provar que entre lésbicas não pega Aids. Então eu sou o que? Sou um hospedeiro? Se entre mulheres não pega aids então quem carrega a Aids somos nós bissexuais? E aí? Se somos nós que fazemos, porque então não pesquisar também a saúde de nós bissexuais?

Uma coisa que me marcou nesse encontro foi esse insight sobre o bissexual ser o hospedeiro. Porque é essa a impressão que muitas de nós temos quando vemos o desagrado de uma mulher ou um homem ao lhes informar a nossa sexualidade. Uma cara de nojo, como se fosse suja.

Porque não falar sobre bissexualidade? Nós somos safadas? Porque não nos definimos? Oras, safadeza é questão de caráter e não questão de identidade sexual!

Se um homem é casado com uma mulher e a trai com outro homem, ele pode tanto ter desejo pelos dois sexos, ser um heterossexual precisando viver outras coisas na sua vida, como ser alguém que poderia ser gay mas que não conseguiu lidar com seus desejos e com as pressões sociais que ainda hoje existem com relação à homossexualidade.

Nós não somos bem resolvidas? Me desculpe decepcioná-las. Mas eu sou muito bem resolvida. Amo as pessoas independentemente do seu sexo, sou bissexual. Só que se você for bissexual, se tem uma relação com uma mulher e em outro momento está com um homem, você é promiscua, segundo dizem?

Então precisamos discutir outra coisa também, qual é a definição de promiscuidade? É transar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo? Se for isso, as lésbicas e os heterossexuais também o fazem e são. Eu sou bissexual, já transei e me relacionei com homens e mulheres, embora com um de cada vez. E isso envolve outras questões, como: qual o contrato de relacionamento que você tem? É de exclusividade sexual? É aberto? Aberto em relação a sexo ou a afeto também? Contratos de relacionamento independem da sua identidade sexual.

É puro preconceito, isso mesmo, no sentido literal da palavra: pré conceito, discriminamos e temos medo daquilo que não conhecemos. Se formos continuar negando a bissexualidade, então é melhor nos tirar do movimento. Por que dizer que há bissexuais no movimento? Por que chamar um seminário nacional de lésbicas e mulheres bissexuais, se não se discute nunca a bissexualidade? Não parece meio perverso criar a expectativa de que eu que sou bissexual posso ir a esses lugares, mas chegando lá tenho de estar contemplada em falar apenas de uma parte de mim, de meus desejos e das minhas vivências?

Mas não me sinto na obscuridade. Na verdade entrei no movimento me identificando como bissexual. O problema são os outros, eles é que precisam sair dessa hipocrisia. Tenho certeza que há várias companheiras bissexuais que sofrem demais, pois tem de passar por lésbicas para serem aceitas.

Entendo que cada um tem o seu tempo. Mas não posso deixar de lutar por reconhecimento. As lésbicas querem visibilidade para que os seus direitos sejam respeitados? Pois é, nós bissexuais também queremos. Só que com um agravante, temos que lutar pela nossa visibilidade como bissexual na sociedade, e o que é pior, também dentro do movimento.

Eu quero respeito, quero que a bissexualidade seja colocada como ponto de pauta, não só uma sigla a ser mencionada para que as bissexuais se sintam contempladas. Será que nossa identidade, nossas formas de nos relacionar, nossa sexualidade, nossas necessidades na área da saúde e em tantas outras não trazem também questões específicas? Essas devem ser pautadas e discutidas pelo movimento para a formulação de propostas específicas de reivindicações políticas e lutas, mas também para pensar no que é comum às duas identidades.

Para além disso, existem coisas mais profundas para dentro e fora do movimento que devem ser discutidas. A bissexualidade é o nome que damos pra uma série de inquietações nesta vida. Não acredito que exista uma coisa com a qual a gente nasce chamada bissexualidade.

A bissexualidade é um nome que damos para a nossa incapacidade de nos sentirmos confortáveis na distinção entre heterossexualidade e homossexualidade. Mas sabemos que esse não-lugar se expressa de diferentes maneiras, é constituído por diferentes desejos: tanto por gostar de pessoas, quanto por gostar de X coisas em mulheres e em Y coisas em homens, ou sei lá mais por que formas. Mas já que demos esse nome pra essa inquietação, a esse não-lugar, e que nos entendemos como bissexuais, apesar da pluralidade de nossas vivências pessoais, é uma possibilidade de encontrarmos conforto, é importante para nós que as pessoas reconheçam que há gente que não se sente heterossexual nem homossexual.

É tudo muito complexo e deve ser conversado sobre, sem amarras, sem repressão. Algumas amigas lésbicas vieram falar comigo e eu até brinquei que não fui eu que inventei a bissexualidade, me deram o livro da Marta Suplicy, eu li e me identifiquei, agora o problema é de vocês (risos).

Para dentro do movimento é isso: esse lugar nos dá conforto e precisamos que ele seja reconhecido, isso é certo. Mas o mundo não se divide em branco e preto, há vários tons de cinza. Podemos dar um nome pra esses vários tons, mas éimportante reconhecer e respeitar a existência deles. Acho que isso é saudável pro movimento e para nós também: entendermos que Gays e Lésbicas não são blocos homogêneos, eles também têm várias tonalidades. Há diversas classes sociais, cores/raças, idades, além das singularidades, mas as caixinhas nos encaixotam. Elas são importantes para fazer política, mas não podem falar diretamente a linguagem da diversidade. Por isso é saudável reconhecer a diversidade interna de cada caixinha e também a diversidade da sexualidade: há pessoas que não se sentem homossexuais nem heterossexuais.

Que me chamem de Bissexual, que chamem de B, que transformem em letrinha, mas que reconheçam que há algo para além da heterossexualidade e da homossexualidade. Enfim, que reconheçam meu direito a existir.

Tatiana Ranzani Maurano - PE
Regina Facchini - SP
Fabiana Karine de Jesus - RJ "

Postado por Marcelo Hailer | 13:59:1 | Comente

26/5/2010

Ufanismo hipócrita

Ontem, segunda-feira (25/05), cheguei em casa por volta das 0h e dei de cara com uma bandeira do Brasil na janela da minha casa. O meu estomago embrulhou na hora. Não por conta da bandeira, mas pelo motivo que ela está lá: Copa do mundo.

Não tem coisa mais irritante do que esse ufanismo falso que surge sempre que chega uma copa do mundo. A galera passa os quatro anos, intervalo de uma copa para outra, cagando pro país e só reclamando. São raros os sujeitos que dizem "eu gosto do Brasil". Em sua maioria sonham em ir para o exterior ganhar Euro ou Dólar.

E pra completar, hoje de manhã no ônibus, rumo a pós, tinha quatro meninas do meu lado, resolvo escutar o papo delas. Perfeito. "Nossa, tem que ver, a galera da minha rua ta fazendo vaquinha para pintar a rua e comprar bandeiras pra copa. Meu, todo mundo lá se odeia, todo mundo fala mal de todo mundo e agora por causa da copa querem fingir que se gostam".

A voz do povo é a voz de deus.

Se a seleção ganhar, as pessoas irão levantar a bandeira. Se perder, as bandeiras serão rasgadas. E o ufanismo brasileiro vai voltar pro seu lugar: inexistência.

Postado por Marcelo | 18:50:11 | Comentários(7)

12/5/2010

@s gays na grande mídia

Desde que a décima edição do Big Brother Brasil foi ao ar a questão homossexual nunca esteve tanto na vitrine midiática como nesse momento. O primeiro momento se deu com a rixa entre Marcelo Dourado e os gays Angélica, Serginho e Dicesar. De um lado os coloridos, do outro lado o preto e branco da homofobia. Este último, infelizmente, ganhou.

Mas a partir daí pipocaram reportagens nos programas de fofoca que entopem a televisão na sessão vespertina. Jornais de grande circulação como Folha de São Paulo e O Globo fizeram artigos e matérias a respeito. A questão estava no ar. Debateu-se muita coisa: adoção, se é doença, se é homossexualismo ou homossexualidade, qual a diferença entre travesti e transexuais etc.

Quero destacar três momentos que acredito terem tido relevância e gerado discussão.  O primeiro foi o programa Debate MTV, que é apresentado pelo músico Lobão. O debate foi ao ar no dia 19 de março e discutiu uma possível contemplação da legislação para os LGBT. Foi legal. Principalmente quando exibiram um vídeo com dois jovens gays se beijando em pleno centro de São Paulo e a reação das pessoas. Que foi negativa, óbvio.

No último domingo tivemos a polêmica reportagem da revista Veja que abordou jovens gays que vivem fora do armário. A matéria gerou um caloroso debate a cerca de sua verossimilhança. Ficamos com a impressão de um simulacro do mundo gay. A realidade pintada ali era cor de rosa além da conta. O brilho do rosa incomodou. Mas de todo jeito, a comunidade gay estava de forma positiva na publicação de maior circulação do continente Latino Americano.

Eis que ontem, terça-feira (11/05), o programa Profissão Repórter deu uma aula de bom jornalismo. Em texto publicado nesse mesmo blog apontei que a falta de um trabalho de campo dos repórteres da Veja fez com que o trabalho publicado ficasse ficcional e redundante.

A jovem equipe comandada por Caco Barcellos foi até a rua Major Sertório, no centro de São Paulo, escutar aqueles jovens homossexuais que se encontram nas reuniões do Purpurina. Depoimentos contundentes revelaram que aquele gay da Veja é o ideal, mas ainda vive mais na representação do que na carne e no osso.

O encontro com alguns pais do Grupo de Pais de Filhos Homossexuais (GPH) mostrou o quanto ainda é difícil para filhos e pais saírem do armário. Em uma entrevista ao A Capa Edith Modesto disse algo que muito me marcou: "O grande problema é que as mães não são educadas para terem filhos homossexuais". Em seguida vem tudo aquilo que chamamos de heteronormatividade. Fato que uma mãe deixou muito claro ao dizer que sonhava um sonho que era seu e não de seu filho. O programa foi bem emocionante. Realístico.

A questão da (HOMO) sexualidade está na ordem do dia. Com acertos e erros MTV, Veja e Profissão Repórter (GLOBO) trouxeram alento para muitos pais e seus filhos gays. Mostraram que é possível continuar a amar @ filh@ independente de sua orientação sexual.

E que venham mais contribuições da grande mídia/ imprensa para que cada vez mais a homofobia se distancie, para que os discursos obscurantistas dos fundamentalistas religiosos se tornem cada vez mais estranhos aos ouvidos.

Também não há como deixar de citar que estamos em ano de eleição. Será que após todo esse debate a cerca da homossexualidade, travestilidade e transexualidade os candidatos majoritários: Marina Silva (PV), José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) passarão uma campanha inteira sem tocar nesse assunto?

Postado por Marcelo | 15:08:15 | Comentários(2)

10/5/2010

A reportagem gay da Veja

Muita polêmica tem gerado a reportagem sobre jovens gays que a revista Veja traz na capa de sua edição do ultimo domingo. Cuja chamada é: "Ser jovem e gay - A vida sem dramas". A intenção é boa, pois, estar de forma positiva na revista de maior circulação da América Latina é um ganho. Porém, a reportagem têm sérios equívocos jornalísticos que comprometem toda a sua boa intenção.

O primeiro erro e mais gritante é o fato de apenas jovens da classe media terem sido usados como fonte para a matéria. Outro erro é que apenas historias que deram certo ou que estão em vias D é que foram reportadas. Em certos momentos a matéria fica por demais inverossímeis. Temos a impressão de que a homofobia não existe, que é coisa de beesha paranóica.

E derrubar a tese da matéria de que os jovens estão mais tolerantes e que não carregam mais o esteriotipo gay (seja lá o que é isso) é ignorar coisas que aí estão. Para ficar num exemplo básico, o filme "As melhores coisas do mundo" que é retratado dentro da classe A. E o que vimos no longa metragem? A intolerância pura. Outro erro crasso da reportagem é afirmar sem qualquer tipo de dado cientifico de que o bullyng decorrente da homossexualidade está diminuindo.

No filme "As melhores coisas..." Mano, o protagonista apanha de uma turma por que o seu pai é gay. Veja bem, o PAI. No ano passado foi exibido "Profissão Repórter" cujo tema era o bullyng. Durante a gravação do programa um dos personagens se matou. Motivo: era gay e afeminado. E ele tinha apenas 14 anos.

Outro detalhe que chama a atenção e que a reportagem reforça uma três vezes é a questão de que os jovens gays de hoje não vão para boates GLS. Gente, da onde eles tiraram isso? Um final de semana apenas em que os repórteres tivessem se submetido a um bom trabalho de campo não teriam escrito tamanha bobagem. Não precisaria nem entrar nas casas, apenas ficar na porta da Bubu, The Week, Danger e veriam como os jovens repudiam os espaços gays.

Por fim, a matéria da Veja chega a ser higienista. Pois desconsidera as jovens travestis. Se baseia apenas em colégios particulares. Faz um recorte grosseiro que chega a ficar ficcional. E ainda por cima desqualifica o trabalhos das ONGs para os direitos LGBT. E sem contar que gastam apenas duas linhas e meia pra dizer que no Brasil não há leis nacionais e que os homossexuais dependem das jurisprudências, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. E dizem que exigir os direitos é algo fora de moda.

Aham Claudia... 


Postado por Marcelo | 13:30:37 | Comentários(10)


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