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      Repórter descreve bastidores de sex club 
    Por João Marinho** 16/1/2009 - 19:02


 

Sob o domínio do SEXO

Tudo que você sempre quis saber sobre um sex club, mas não tinha a quem perguntar

Fazia meses que eu havia entrado naquele site de encontros BDSM, ou de sadomasoquismo, como o povo    simplifica. No Brasil, não existem muitos sites de encontros gays. Há o Disponivel.com e apenas mais uns dois ou três com alguma relevância.

Na América - e na Europa -, entretanto, é diferente. Entre os gringos, é possível até mesmo um site de encontros sado, essa galera que, por aqui, parece tão marginal e pouco numerosa. Mesmo assim, consegui marcar encontros por lá. Um deles, foi com um inglês que veio para o Carnaval. De pegada forte, beijo tira-fôlego, mãos grandes e hábeis e... Errr... outros grandes atributos, Simon me mostrou que a história de que os brasileiros são os melhores na cama não é bem assim...
 
Sexo hardcore
Eu, porém, estava no site por outro motivo. Havia recebido uma mensagem sobre uma festa sado que seria realizada em São Paulo. No "cardápio", um staff formado por militares e ex-militares de verdade. Para interagir com eles, comprava-se uma pulseira. Em uma das faces, um numeral, de 1 a 7,  indicava os níveis de abuso que o cliente conseguia suportar.

O outro lado era do "seguro". Usando-a virada pra ele, o staff não podia tocar no convidado. Semicorajoso, adquiri a de número 5 - e levei três amigos, para não sofrer sozinho. A festa acontecia em um sex club que eu já conhecia, no Centro de São Paulo, perto do Minhocão. Naquele momento, eu acompanhava um dominador e seu "escravo avulso".
 
Rubens*, um homem na faixa dos 35 anos, sente prazer em humilhar seus parceiros. Por isso, fez Luiz*, 29, um moreno peludo, trajar calcinha, sutiã, meia-calça e passear na frente dos outros freqüentadores, que observavam entre surpresos, atônitos e curiosos. Para finalizar, "comeu-o" na cama coletiva.

O clube ali não é grande. Uma porta discreta o separa da rua e é aberta ao toque da campainha. Só homens entram. A escada leva a um barzinho, ao lado do qual há armários para guardar objetos pessoais. No dia da festa, não era necessário tirar a roupa, mas, nos dias comuns, a ordem é ficar só de cueca ou peladão; ou ainda, quem sabe, de calcinha, como Luiz...

Seguindo pelo lado esquerdo, eu e meus amigos, Marcelo*, William* e Haroldo*, chegamos aonde "rolava a festa de verdade": duas camas coletivas, uma sling para a prática de fist fucking, uma poltrona e, ao fundo, uma espécie de quarto com grades, onde o staff abusava de quem usava a pulseira.

Na sling, um senhor barrigudo de cueca preta apareceu depois de um tempo. Eu já o tinha visto antes, em outro clube, no Largo do Arouche. Nas mãos, ele acenava com uma luva, para quem quisesse usá-la. Queria ser fistado - e foi.

Marcelo, o amigo meu que mais se divertiu, tomou do apetrecho, melou-o numa pasta branca e enfiou a mão nas entranhas do outro. Fez isso já cercado de curiosos. Entre eles, estava eu, que via de pertinho e inconformado, um ânus se expandir de forma admirável e engolir dedos, um punho inteiro e o que mais coubesse. O senhor ainda foi fistado mais uma vez naquela noite.
Quanto a Marcelo, ele estava mesmo com o "diabo no corpo". Ousado, desafiou os militares com uma pulseira número 6. Levou gritos, foi amarrado, obrigado a engraxar bota, deitado no chão, humilhado e largado num canto.
 
Sexo regrado
Só cheguei a ficar de joelhos e levar uns gritos, por um dos rapazes inconformados porque eu não desvirava a pulseira. William e Haroldo, que não compraram pulseira, assistiam - mas saí dali quando cansei.

Do lado de fora do "quarto", os demais freqüentadores se divertiam entre si. Vi um rapaz malhadinho socando o membro com força em um homem na faixa dos 40 anos, deitado em "frango assado".  Eu e William nos postamos bem ao lado. Tão perto que podíamos tocar e passar a mão nos dois - o que fazíamos, principalmente William, que teve outras "vítimas". Eles não se importavam.

O passivo, na verdade, parecia não se importar com nada. Ficamos espantados ao vê-lo, minutos depois, sendo "traçado" de quatro, com força e velocidade - mas fumando languidamente seu cigarro. Quem "comia" era Marcelo, em outra de suas aventuras naquela noite.

De certa forma, essa era mesmo a regra tácita: as pessoas estão ali para se pegar (ou assistir) e todos podem participar. Claro que ninguém é obrigado a aceitar ser tocado por quem não deseja - mas o "carão" não é bem visto (embora sempre haja algum "desavisado" que o faça), e a tendência é haver um mínimo de abertura. Para quem quer mais privacidade, alguns sex clubs disponibilizam cabines - o que não era o caso ali.

Saí da festa sado sem levar nem um tapinha, mas a experiência teve pontos em comum com outros sex clubs que visitei:
 
1º. Alta discrição
Sex clubs são, a rigor, lugares discretos. Alguns exibem letreiros, como é o caso de um que vi no Centro e de outro no bairro de Pinheiros. Nada comparado a uma boate, entretanto. Letreiros pequenos, porta pequena, sem filas. Não raro, ela fica fechada. Para entrar, campainha.

Apenas homens são permitidos. "Penso que, na hora do sexo, deve ficar cada um na sua tribo", justifica Gil Braz, 37 anos, dono do Station Vídeo Bar e que topou ser entrevistado.

Para ele, uma mulher não tem sentido em um sex club, pois causaria inibição e até revolta. As travestis também: "Se eu ou você chegar em um daqueles boys que procuram travestis, o boy não vai gostar, nem elas. Vale o mesmo. Ali, não é o público delas - e não se trata de preconceito".

E se o homem for mais efeminado? O Station já foi acusado de não permitir "pintosas". "Não é verdade", diz Gil. "O máximo que pode acontecer é a pintosa se sentir constrangida, porque o ambiente e a decoração evocam o tempo todo uma masculinidade. Fora isso, só se alguém se comportar de maneira mais espalhafatosa". "É como se houvesse um código de comportamento?", pergunto eu. "Isso. Agindo de acordo, pintosa ou não, tudo bem".

Camilo Albuquerque, 27 anos, é antropólogo. Conheci-o sem camisa no sex club do Arouche, o peito torneado à mostra. Era aniversário de um amigo meu ligado ao BDSM. Camilo estava ali analisando seu objeto de estudo: "sou pesquisador do doutorado em Ciências Sociais da Unicamp. Minha pesquisa tem como objeto investigar a relação de marcadores sociais diversos - gênero, sexualidade, classe, raça/cor, idade, estilo, práticas e posições sexuais - na constituição da subjetividade e da corporalidade entre freqüentadores de sex clubs".

Ele complementa o que disse Gil: "Há vários códigos e gestos valorizados e desvalorizados [...], mas um aspecto que salta aos olhos é a valorização da masculinidade e a reiteração de posturas, gestos e atributos corporais que evoquem a virilidade [...]. Outro aspecto que chama a atenção nas salas de sexo é o relativo silêncio. Quase não se conversa [...]. A linguagem é sobretudo corporal e gestual". Não foi à toa que olhares atônitos haviam reagido à ousadia de Luiz e seu desfile de lingerie.
 
2º. Nu com a mão no bolso
Estar nu, ou pelo menos só de cueca, é básico. Alguns permitem o trânsito com roupas completas, mas, na esmagadora maioria, a vestimenta, com exceção de meias e sapatos, só vai até a seção de armários.

Tudo fica ali guardado, trancado com um cadeado, de maneira similar à de uma sauna. Como elas, alguns clubes oferecem chuveiro. Tirada a roupa, é esquecer os defeitinhos e interagir sem medo. Ou tentar. "Na primeira vez, é meio assustador", me conta o professor de inglês Filipe Alves, 34. "É uma espécie de darkroom punk e gigante, mas sem ser tão dark. Demora um pouco pra se adaptar. Tive de beber
pra relaxar".

"Eu estava nervoso, tímido, envergonhado", diz Camilo, sobre sua primeira vez. "Há uma certa ritualística quando se chega a um sex club [...], que é o desnudar-se. Trocar as vestimentas do mundo lá fora e despir-se para entrar num outro território [...]. Era uma festa, o clube estava bem lotado. Depois que tirei a roupa, fui entrando no espaço e notei que ali havia cerca de 50 outros homens nus circulando. Na área do bar, conversavam animados, com naturalidade. Foi interessante, porque bastaram 10 minutos para a nudez deixar de ser um problema".

Desnudar-se, porém, não significa necessariamente que todos os corpos devam ser perfeitos - e isso nos leva ao próximo item...
 
3º. Democracia sem carão
"O legal é a diversidade", conta Filipe, que exibe uma "barriguinha de chope". "São vários tipos físicos e não tem carão. As pessoas não são tão preocupadas com ser gordo ou bonito. São mais acessíveis".

"Uma vez", diz ele, em tom de segredo, "transei com uma pessoa com deficiência. Não era feio, mas usava muletas, tinha as pernas tortas. Ele me chupou e achei um tesão". Freqüentador de festas sexuais temáticas e surubas caseiras, o produtor artístico, sociólogo e ator Marco Fabiano*, 32, concorda: "tem uma maior democracia, sim. Na boate, a exigência do corpo é maior".

Já Camilo concorda "que exista essa percepção entre os freqüentadores dos clubes, sobretudo quando comparam as experiências com as que tiveram em outros locais GLS, como as boates, [...] mas não significa que, nos sex clubs, haja uma fruição livre de corpos e prazeres. Há, sim, uma série de marcadores sociais que influenciam na constituição dos sujeitos e dos corpos desejáveis, marcadores que podem ser percebidos, por exemplo, pela valorização da masculinidade e de certos atributos".

O antropólogo chama a atenção para o olhar. "Desviar o olhar, por exempl

 
o, é uma maneira de escapar a investidas de um parceiro indesejado. Não se trata talvez do famigerado carão, esnobe, mas o fato é que nem todos ali são objetos de contemplação, de desejo, de tesão".


 
Zonas do sexo
Ir a um sex club pode fazer com que a pessoa entre em contato com zonas desconhecidas de sua sexualidade e viva experiências em que normalmente não pensaria.

Uma delas é a formação de grupos de "amigos com benefícios". "Rolando afinidade, assunto, papo, acontece. Brinca-se, bebe-se, fala-se do trabalho... E se faz sexo. O sexo pode virar amizade, algumas vezes real e efetiva", diz Marco Fabiano, sobre as surubas caseiras.

Para Gil Braz, isso também ocorre nos sex clubs: "Temos um cliente que vai todos os dias e pessoas que se sentam no bar, conversam, se conhecem. Temos nosso grupinho".

Bruno* foi um dos que passaram por novas experiências. Pela primeira vez no clube do Arouche, dizia-se envergonhado, a princípio. "Olha aonde você foi me trazer?", perguntava ao amigo Luiz, entre incrédulo e divertido.

Bastaram alguns minutos para que eu o flagrasse em um quarto ultraescuro. Lá dentro, ele penetrava, ríspido, um rapaz de cabelos castanhos claros, enquanto espalmava as nádegas do cidadão com força. "Bruno?!", perguntei, surpreso. "Shhh...", limitou-se a fazer. Vale dizer que, naquele dia, o parceiro de Bruno já havia chupado dois caras e, antes do fim da noite, levaria um banho dourado de urina.

O Luiz, amigo dele, é o mesmo da calcinha. É dele o relato de mais uma experiência diferenciada: "Foi ali", disse ele em referência ao clube do Arouche, "que, pela primeira vez, fiquei com um cara idoso. Ele devia ter uns 70 anos, pela aparência. Mas era pauzudo", procura "justificar".

Às vezes, porém, a experimentação pode seguir vias perigosas. O bareback é uma delas. Freqüentador de saunas e fã de passivos efeminados e de crossdressers, Rui*, 27 anos, diz que já viu muito sexo inseguro em um sex club perto da Rua Frei Caneca: "Já vi muito, sim. Sempre tem alguém que faz bareback".

"No oral, praticamente ninguém faz sexo seguro [NR: chupar com camisinha]. Penetração, cheguei a ver na carne, mas não tantas vezes", conta Filipe.

"Não se pode negar que haja freqüentadores que praticam sexo penetrativo sem proteção nos sex clubs. Alguns deles, por escolha - mas há também muitos que se protegem, e o discurso da necessidade de sexo seguro parece bastante espraiado nos clubes. [Além disso], um primeiro elemento que não pode ser descartado é que os clubes disponibilizam preservativos para seus clientes", diz Camilo.

Assim, se o leitor quiser conhecer um sex club, vale o conselho de Marco Fabiano: "Vá desprovido de todo e qualquer preconceito. Extravase sem pudor. Solte sua imaginação, seu corpo e seu prazer. De forma responsável".

*Os nomes dos personagens da matéria foram alterados.

** Matéria originalmente publicada na edição #14 da revista A Capa - julho de 2008




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Comentários
O ferrolho que impuseram no mundo desde os primeiros surtos mundiais da epidemia de HIV, eu acho que acentuou em muito as tendências sado-maso inatas do mundo judaico-cristão-muçulmano...que é o nosso! Mas no Brasil onde a esculhambação sempre deu mais liberdade de foda-s, nunca se gostou muito nem sabe-se praticar direito esta violência combinada...os que estão fazendo 20 anos agora e nunca experimentaram o mundo como era antes do terror imuno-ilógico, suspeito que adoram mais apanhar na cara e ser amarrado-s na cama...mas mesmo assim com um mínimo de crueldade, não está no nosso espírito fazer sofrer realmente, e boa é a foda onde depois da porrada, muito beijo na boca fecham com our o que se abriu para o amor com pegada. - lcm - 6/2/2009 21:18:45
Li o artigo supracitado e gostei. sou coroa do interior e gostaria de conhecer essa beleza do sex clube! valeu - Jhose - 27/1/2009 23:46:14
Gostei da matéria mas não pude deixar de pensar que talvez ela fosse mais interessante se tivesse sido escrita pelo seu amigo Marcelo. Ele foi ao clube com tesão e vontade de participar de tudo. - daniel - 24/1/2009 12:05:16
Cara passa os end ae ... otima reportagem - Jonny - 23/1/2009 16:48:14
gostei da materia , da vontade de ir num clube desses - lucas - 23/1/2009 12:03:58
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