"A classe média gay é tão despolitizada quanto a hétero", diz blogueiro Thiago Magalhães Por Marcelo Hailer 8/6/2009 - 12:47
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Thiago Magalhães, 31, formado em Direito pela USP (Universidade de São Paulo), é dono do blog Introspecthive, espaço onde o moço fala sobre "comportamento, gastronomia, noite, viagens, cultura, universo gay", segundo o próprio. Na semana passada o rapaz lançou um post desabafando o seu descontentamento em relação à classe gay.
Adepto do lema "faça você mesmo", ele revelou que iria fazer uma cartilha junto a outros cinco blogueiros. Os blogueiros envolvidos são: Gustavo, Cris, Daniel, BHY e Isadora.
O grupo espera que, com essa cartilha, os gays possam tomar "atitudes úteis, construtivas" e que tenham "efeito social positivo". Thiago acredita que há muitos homossexuais que estão se lixando para a questão de direitos, mas também acredita que há pessoas que gostariam de fazer algo. "A cartilha é para essas pessoas", explica.
Além da ideia da cartilha, Thiago Magalhães fala um pouco sobre política, direitos, criminalização da homofobia e mais. Confira.
Gostaria que você explicasse ao nosso leitor a ideia da cartilha. A ideia da cartilha é mostrar o caminho das pedras para que essas pessoas, sozinhas, tomem atitudes úteis, construtivas, que tenham efeitos sociais positivos, e ajudem a melhorar a nossa situação. É uma iniciativa independente, feita por seis blogueiros, desvinculada de interesses de grupos ou partidos, e que não concorre ou compete com o trabalho da militância. Não sou o dono da verdade, nem tenho a pretensão de ditar regras para ninguém. Estou apenas fazendo algo para somar, aproveitando essa visibilidade dos blogs para provocar uma discussão saudável, que estimule outras pessoas a sair da inércia.
Pode adiantar algumas ideias da cartilha? São sugestões de pequenas atitudes que possam ser adotadas e incorporadas ao cotidiano. Ideias realistas, viáveis, que saiam do papel. A intenção é que as pessoas percebam que podem fazer a diferença, que isso está ao alcance delas, e se sintam encorajadas. Tem posturas essencialmente pessoais, ligadas à autoestima, às relações com a família e os amigos, à busca por informação, ao consumo consciente, e outras que, mesmo sendo individuais, envolvem algum tipo de participação social, como o trabalho voluntário, a colaboração com ONGs ou mesmo o contato com parlamentares.
Você acompanha o trabalho da militância? Já foi a algum encontro de algum grupo? Você participou da Conferência GLBT (à época) Municipal e Estadual de São Paulo? Qual a sua opinião sobre o Fórum Paulista LGBT? Como você classifica a perseguição que a senadora Fátima Cleide (PT-RO) está sofrendo? Acompanho o trabalho da militância lendo as notícias relacionadas, quando são publicadas na Folha de S. Paulo e nos portais Mix Brasil, A Capa e Parou Tudo. Nunca fui a reuniões de grupos ativistas, nem aos eventos que você citou, e não estou a par do episódio envolvendo a relatora do PLC 122. Minha vida é outra. Contudo, isso não me descredencia ou desqualifica para produzir uma cartilha. Os cidadãos comuns têm todo o direito de se mobilizar para mostrarem o que pensam e protegerem uns aos outros, sem necessariamente aderirem a grupos ativistas. Quero mostrar com a cartilha que não é preciso se filiar a um grupo ou frequentar eventos para fazer o que está ao alcance de cada um.
O meio gay é alienado politicamente? A classe média gay é tão politizada ou despolitizada quanto a classe média hétero. Não somos mais alienados porque consumimos moda, cuidamos do corpo ou tiramos a camisa na boate. Essa associação automática do universo gay com a futilidade é perigosa. Observo que no meio que frequento existe sim uma apatia, um individualismo. Muitas pessoas realmente não estão nem aí para nada. Mas outras se importam e ficariam felizes em ajudar a causa, e foi para elas que resolvi bolar a cartilha. Esse individualismo e falta de participação não são exclusividade do meio gay, são parte da mentalidade contemporânea, têm a ver com um processo de esvaziamento do debate político a partir do regime militar, enfim, têm uma série de explicações que nada têm a ver com sexualidade. Sexualidade é algo mais básico e simples do que isso.
Em sua opinião, qual partido político está mais próximo da comunidade gay? Como não acompanho de perto as atividades de cada partido, não quero correr o risco de ser injusto. Sei que boa parte deles, não só os de extrema esquerda como também PT e PSDB, têm subgrupos ligados à diversidade sexual. Mas eu, que estou fora do jogo político, não enxergo nenhum partido como realmente próximo da comunidade gay.
Você frequenta a Parada Gay? Vou há uns oito ou nove anos. Ainda não desisti dela, mas não sei dizer por quanto tempo vou continuar. Só insisto porque acho que, se ela está desvirtuada, não é abandonando o barco que alguma coisa vai mudar. Em entrevista, o diretor-geral Manoel Zanini disse que acha que o peso político da Parada é muito maior hoje, com os tais três milhões. Eu já penso o contrário: não acho que a quantidade de gente na rua soma ao movimento, ela até o enfraquece. O recado político do "vejam como somos muitos" foi dado quando atingimos o primeiro milhão, nós realmente causamos impacto, mas a sociedade já absorveu a mensagem e isso não faz mais tanta diferença. "Dançar, cantar e celebrar" não é protesto. O lado lúdico é necessário, mas não basta, não leva a conquistas nem provoca uma mudança de mentalidade. Não sei qual a saída. Talvez deixar o trecho da Paulista para a militância discursar, abrir espaço para protestos e reivindicações, e ligar a música dos carros ao dobrar a Consolação, deixando a festa rolar a partir daí. Seria menos jogação, o povo da bagunça grátis acharia chato, viria menos gente? Tudo bem, não é do volume desse povo que a Parada precisa hoje. E festa, os clubes fazem muito melhor.
Você acredita em ações coletivas? Acredito que, em algumas situações muito específicas, a classe média em geral é capaz de se indignar, se mobilizar e pensar coletivamente. Mas, quando o assunto são as questões LGBT, sou meio cético. Acho muito difícil querer provocar uma convergência de vontades em um grupo que é tão diverso e plural, e também tão desunido, que tem mil preconceitos entre si. Quando eu escrevi que "a esperança não está nas atitudes coletivas, e sim nas individuais", quis dizer que não dá para a gente ficar esperando uma união que pode simplesmente não acontecer. Por isso, defendo ações individuais, ao estilo "faça você mesmo". Que podem se multiplicar e acabar tendo um efeito coletivo. Mas cada um por si, sem prestar contas e nem depender de ninguém. É importante que cada um se sinta impelido a ter sua própria iniciativa, ao invés de ficar esperando eternamente pelos outros.
E sobre a mídia gay, ela ajuda a despolitizar a comunidade gay? Qual a sua opinião a respeito? Não podemos fazer dela culpada. O problema é anterior. Se a "comunidade gay" é despolitizada, não é por causa da mídia gay, mas porque não lê jornal mesmo, da mesma forma que muitos segmentos héteros também não. É um erro pensar que basta ler os sites e revistas gays para estar suficientemente informado, quem pensa assim não enxerga muito longe. O papel da mídia gay, enquanto mídia especializada, é cobrir as especificidades de seu universo. Política entra na mistura, sem dúvida, mas é só um dos assuntos a serem tratados. E tem que ser dosado. Comportamento, noite, consumo, identidade, moda, lazer, saúde, aconselhamento jurídico, sexo, fofocas, assuntos úteis e fúteis, tudo isso é de interesse do público gay e é perfeitamente legítimo que ele procure essa informação. Temos que aceitar que algumas pessoas se interessarão por política e outras não, sejam elas homo, bi ou heterossexuais.
Você é formado em Direito. Acredita que os cursos de advocacia preparam os futuros profissionais a lidarem com a questão da homoafetividade? Só posso falar pela USP, que foi onde estudei. Eu me formei em 2001 e, naquele tempo, o curso de graduação em Direito não dizia uma só palavra sobre o assunto, não tratava dessas problemáticas não contempladas pela lei. A repercussão nacional das decisões proferidas pela desembargadora Maria Berenice Dias no Rio Grande do Sul é posterior a essa época, não sei como o curso está agora. Parece que existe um grupo que promove discussões extraclasse sobre questões ligadas à diversidade sexual, no pátio da faculdade, com gente de outras áreas. Mesmo entidades de apoio aos advogados, como a OAB e a AASP, começaram a dar cursos sobre o assunto muito recentemente, coisa de dois anos para cá. Mas um bom curso de Direito prepara o advogado para pensar o ordenamento jurídico como um todo e encontrar soluções para os problemas com base nas leis já existentes. Buscar o reconhecimento de uma sociedade de fato, por exemplo, foi uma saída criativa para contornar a inexistência de uma união estável homossexual, e assim conseguir dividir o patrimônio dos casais que se separavam.
O que você acha da lei 10.948? Foi um grande passo dado aqui em São Paulo. É importante esse reconhecimento formal, por parte do legislador, de que a diversidade sexual precisa ser respeitada, isso tem um caráter educativo para o resto da sociedade. E a imposição de uma pena pecuniária (multa) não deixa de garantir à lei uma certa efetividade. Mas para estancar a homofobia de verdade, só mesmo atribuindo a esse tipo de comportamento uma sanção penal, coisa que somente a esfera federal tem competência para fazer. Por isso, a aprovação do PLC 122 é tão importante.
Parabenizo o Dr. Thiago pela entrevista concedida; que a sua cartilha seja mesmo criada e publicada. Espero ter acesso à mesma. Abraços. - Gama - 16/6/2009 23:03:13
Enfim apareceu algum comentário inteligente nesta newsletter!Ultimamente ando tão decepcionado com a sociedade de um modo geral,especialmente com os jovens de hoje que têm todas as condições e a liberdade para transformar o mundo, liberdade essa que pessoas da minha geração deram suas vidas para obter,e eles não fazem nada,só pensam em consumo e fingem que não ficarão velhos um dia!Parabens Thiago nem tudo está perdido!Quanto a parada gay,ela brilharia muito mais se não restasse nenhum lixo no chão,não esqueçam que temos um planeta pra salvar! - rafael - 16/6/2009 11:38:39
FICO MUITO FELIZ COM O QUE LI E ACREDITO QUE UMA CARTILHA PODE SIM DAR UM INICIO A UMA POLITIZAÇAO QUE É BASTANTE NECESSARIA , GOSTARIA DE PARTICIPAR E CONHECE LO PESSOALMENTE,TB NAO DESISTI DA PARADA CONCORDO QUE JA VIROU UMA FESTA E PERDEU SE A CARACTERISTICA DE UNIAO MUITO OBA OBA, EU SENTI FALTA DE UM GRITO DE GUERRA UM HINO QUE EM CORO TENHO QUE CERTEZA EMOCIONARIA E UNIRIA O POVO PRESENTE , AS TORCIDAS FAZEM ISSO . - JOAO PAULO - 16/6/2009 11:09:42
Concordo com quase tudo.
Mas a maioria dos gays nem frequentam os lugares gays.
Quem frequenta é a minoria que gosta das boates... do bate cabelo... dos shows horrorosos das drags... e por aí vai...
Os gays mais politizados dispensam esse tipo de lugares...
Sou um deles... detesto essa coisa de gay ter que ser mulher.... desmunhecar... e outras coisas...
Ser gay esta acima disso... muito acima...
- Nereu - 11/6/2009 12:49:13
Concordo em partes. Não me considero alienado politicamente falando, muito pelo contrário, em ambas as causas "Héteros" e "Homos", levanto a bandeira da justiça, indo as manifestações sérias, comentando e discutindo os temas com os meus.
Na questão partidária, creio que existe tanto partido e poucas soluções e espaço quando o assunto é sexualidade [homo ou não]! Primeiramente pra se haver política, o número de partidos deveria cair. Para que o cidadão pudesse observar melhor o que se faz, e o que não se faz. É muito mais fácil observar o que se 5 partidos estão fazendo pelo povo, do que os atuais 27 [dados TSE].
A parada é divertida, porém o que realmente interessa ser discutido, não é! A parada na minha opinião nada mais é do que uma data folclórica. Creio que o palanque para as discussões, deveria ter outro lugar e outra data para serem então divididas com população, governo e judiciário.
- Zanucci - 10/6/2009 14:42:30
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